Quando o assunto é Jamaica, a primeira coisa que associamos a este país costuma variar entre Bob Marley, reggae e uma pitada de cannabis. Pois para mim a primeira coisa que esta ilha vai me lembrar sempre será Donovan Waite.
Não vou perder meu tempo citando a biografia dele, para isso existe o Google. Vou apenas citar o que presenciei nos dois dias de seminário que tive com ele.

O evento ocorreu no ginásio de judô do Ibirapuera, e felizmente não estava lotado a ponto de não conseguir praticar acima do tatame. Mas estava longe de ser vazio, afinal, estamos falando de Donovan. Iniciamos com um aquecimento que lembrou bastante do Yamada sensei (por motivos óbvios), onde houve alguns exercícios de respiração.
Primeira técnica: henka waza a partir de gyaku hanmi katatedori uti kaiten para dai nikyo. Movimento suave mas vigoroso, base baixa, com um tai sabaki que só ele consegue fazer. Até alguns yudanshas ficaram catatonizados: como ele fez aquilo? Aliás, como é possível se deslocar daquele jeito?
As outras técnicas foram surgindo aos poucos. Enquanto isso, ele andava pelo tatame todo olhando, parando, explicando e corrigindo, sem distinção nenhuma. Foi algo diferente: era como Deus andando entre os homens, mas como se fosse um deles. Donovan era ainda mais acessível do que Yukimitsu Kobayashi. Talvez por causa da língua.

Perambulando pelo tatame, acabei topando com o Felipe, e começamos a treinar shihonague e depois, iriminague. Neste momento, me surgiu uma dúvida e ocorreu que Donovan estava por perto. Pedi ajuda para ele e a conversa foi cômica:
- Excuse me sensei, I’m having a big problem here.
- That’s fine, how can I help you?
- Well… I’m usually taller than my partners and I don’t know how to deal with my legs.
Aí o cara olha para minhas pernas desproporcionais e começamos a dar risadas.
- Oh… you have to work with your hips lower. Show me how are you doing.
Legal… por um instante tivemos Donovan como nosso personal trainner. Então ele nos explicou e mostrou qual era a sequência correta do deslocamento. Desse jeito, humilde, aberto. A simpatia em pessoa.

Fim do primeiro tempo, e no caminho ao vestiário acabei encontrando sensei Panhan. Fui com a esposa para almoçar no Liba e voltamos a tempo. O ginásio estava um pouco mais cheio, e começaram o treino pra valer: kokyu nagues, de tudo que era jeito.
Grupos foram formados e começamos os kakarigeikos: kokyu, sumiotoshi, iriminague, etc. Em determinado momento, acabei topando com Doc no tatame, e tivemos uma conversa rápida. Pouco depois, meu gás acabou e saí do tatame para uma água. Assisti por fora pela primeira vez e senti de alguma forma de que este evento acabou rolando muito melhor do que do Yamada no ano passado. E isso se deve à personalidade do Donovan.

Retornamos domingo e o treino foi kakarigeiko de kokyu, mas de uma forma mais livre. Donovan ia fila em fila para ver o que cada um fazia e depois orientava. Rendeu muito. Depois passamos para ushiro ryotetori kokyu nague. Nessa hora, eu estava pedindo água de novo, e acabei encontrando sensei Edu, que não pode treinar por causa de uma cirurgia recente. Conversamos, e em algum momento ele olhou para o tatame e disse: não tem jeito, é ele, o cara é fantástico. Eu entendi no ato. Edu estava se referindo ao espírito alegre de aikido que Donovan despertava em todos os presentes.
Última técnica que Donovan passou: kokyu nague a partir de ryokatadori. Eu não acreditei: ninguêm conseguiu assimilar de primeira, e olha que alguns são yudanshas excelentes. Felizmente Erika filmou essa parte e somente depois de assistir várias vezes acabei entendendo melhor.
Final do evento: Donovan foi merecidamente ovacionado. Logo depois, Cavagnoli sensei agradeceu a todos em nome dos organizadores, e foram devidamente aplaudidos também. Certamente foi um dos melhores seminários que ocorreram nos últimos tempos.
