Sobre o ki x força
May 8th, 2010
Há um discurso bastante comum na maioria das academias de aikido: use o ki, e não a força. Já ouvi alguns senseis irreverentes que brincaram com isso, dizendo que quando algum yudansha diz “relaxa, ou você vai se machucar”, no fundo ele quis dizer “por favor, pegue leve e não me faz passar vergonha dentro do meu hakama”.
Piadinhas à parte, para quem acompanha literaturas sobre o aikido e medicina oriental, certamente já viu que o termo Ki é usado de formas variadas no chinês e japonês. Exemplos: 勇気(yuki - coragem), 天気(tenki - clima), 空気(kuki - ar), 電気(denki - eletricidade), 靈気(reiki - aquela terapia que mexe com as auras manipulando com as mãos), 気違い(kitigai - louco), etc.
Muitas vezes Ki é interpretado como energia (o que não está errado). Nesse caso, é válido afirmar que é possível converter um tipo de energia para outra. Qualquer livro de física do segundo grau mostra vários exemplos disso.
Agora, veja só: os caracteres chineses para definir força são 力気(pronuncia-se “li-chi”, onde o “chi” corresponde ao “ki” japonês). Ou seja, a força é uma forma de Ki. Não é interessante? Pense bem: você precisa de força para tirar seu corpo de lugar, para erguer seus braços, segurar seu oponente e até mesmo para respirar. Sobre essa ótica podemos até dizer que é ridículo a afirmação de não precisar de força no aikido. Você precisa dela em maior ou menor grau. É inevitável.
É claro que o nague deve focar no kokyu e evitar a força excessiva, mas o mesmo não vale para o uke. Este precisa aplicar toda sua força (desde que com a devida sinceridade), pois assim obriga (e ajuda) o nague a procurar e encontrar uma alternativa.
O verdadeiro aprendizado começa quando o praticante percebe que algo está errado, e esse algo sempre se manifesta em forma de alguma limitação. Pode ser do próprio praticante assim como tambêm da técnica. Então ele perceberá que o conteúdo pedagógico passado pelo sensei é algo morto, mas que ele mesmo está vivo, e portanto, em condições de contornar sozinho o problema. E nada melhor do que um uke pesado e forte para catalisar esse pequeno satori.
Um nague forte até pode desfrutar desse atributo durante o treino. Não acho que esteja errado. Mas se ele dominar tambêm o kokyu, sua força torna-se então algo a mais, um plus. Seria uma opção mais inteligente, não é verdade?


